Não quero trocar de carro, não quero comprar ou alugar casa, não estou procurando emprego nem busco serviços de escort boys ou aconselhamento espiritual. Mesmo assim, todo dia, como assinante de jornal, recebo o caderno de classificados, uma maçaroca de papel que vai imediatamente para o lixo ser reciclada (aliás, reciclar pressupõe que antes houve algum uso para o material, o que, no caso, não acontece, a não ser quando o porteiro pega o jornal para as necessidades do cachorro, mas aí é outra história).
Ao abrir o jornal pela manhã, minha primeira providência é retirar as páginas de classificados e separá-las na lixeira. Confesso que há até um prazer nisso, especialmente nos finais de semana, quando o volume do que tenho que ler se reduz significativamente, o que é um alívio.
Hoje, questiona-se se o jornal impresso irá sobreviver à era da internet. Há quem diga até que ele já morreu e que o fechamento de um grande número de diários é só uma questão de tempo. Não sei. O fato é que a indústria de comunicação precisa mesmo se repensar. E o envio dos classificados é mais uma de suas grandes questões, especialmente por ser uma de suas fontes de financiamento.
Já estava na hora de criarem uma forma de reduzir essa massa de papel chamada classificados – para muitos, inútil – enviada diariamente para as bancas e os assinantes. Imagine quantas toneladas diárias de lixo todo esse papel representa! Penso que, como eu, muitos assinantes, se pudessem, escolheriam não receber esse caderno, especialmente sabendo que estariam fazendo um bem pelo planeta. E, quando quisessem, bastava ligar e acionar a entrega. Nas bancas, o comprador poderia escolher o jornal com ou sem os classificados.
Aliás, as campanhas voltadas para a preservação de meio ambiente feitas hoje pelos jornais chegam às raias do ridículo. Em nome do meio ambiente, recentemente o Globo enviou até bichinhos de pelúcia e livros sobre temas ambientais – provavelmente escritos por estagiários de jornalismo com base em pesquisa na internet (sou coleguinha de profissão e sei como isso funciona).
Não era hora de trocar esse discurso barato por sistemas de bancos de dados mais inteligentes que permitissem a redução do volume de papel? Aliás, penso que o primeiro jornal que fizer isso vai ganhar muito, primeiro em simpatia e logo depois em assinantes.
Isso me lembra até um episódio que assisti recentemente no incrível mundo frívolo do GNT, canal da Net. Num desses Fashion Week da vida, vi a repórter toda deslumbrada falando que o cenário do desfile era feito de madeira ecologicamente sustentável, como se isso fosse a salvação do planeta. Mas, cá entre nós, tem coisa mais perversa para o meio ambiente que a cultura do descarte promovida pela indústria de moda? Aliás, é bem provável que num futuro próximo as modelos caiam do salto por conta da patrulha ambiental que deve se acirrar em todo o planeta, assim como aconteceu com os fumantes.
A verdade é que entre o discurso ambientalista e a prática há um longo, um longuíssimo caminho. E o mundo não parece realmente preparado para uma mudança efetiva nos seus hábitos de consumo. De qualquer forma, tomara que as previsões mais alarmistas estejam erradas. Mas fica o meu recado para os jornais.
Sobre o fim dos jornais: leia aqui outro artigo do Observatório da Imprensa.