Ignorantes e ignorados

A bandalha do motorista de ônibus começa nos resultados do Enem.

Estava na Av. Princesa Isabel, esperando um frescão para ir ao Centro. Em alguns minutos surgiu um, mas, como é de praxe, passou pela segunda pista e não parou. Tive que esperar o seguinte. Como meu destino era o ponto final, ao chegar lá, fui imediatamente procurar o responsável, para reclamar. Na garagem do Menezes Cortes, em meio a sujeira, fuligem e descargas de ônibus, vi dois homens encostados numa cabine imunda e perguntei se eles eram os fiscais do ônibus da Linha Pégasus, número tal. Um deles se identificou e pôs-se a me ouvir. Aí vomitei toda a minha raiva:

-         Cadê o motorista desse ônibus? Eu fiz sinal para ele no ponto e ele não parou. A maioria não para. Por que eles passam por fora e ignoram os passageiros? Isso é um serviço público…

O fiscal, surpreso, me apontou o motorista. Ele estava dentro da cabine, ouvindo tudo. Dirigi a eles toda a minha indignação e saí batendo pé, me sentindo justiçada por transferir para meu agressor a agressão que havia sofrido.

Entretanto, a poucos passos dali, comecei a me sentir mal. Com remorso. Culpada. Revi mentalmente a cena. O motorista em pé, comendo uma quentinha de macarrão, naquele lugar inóspito, barulhento, poluído e insalubre. Vi seus olhos vermelhos, sua pele ressecada, sua expressão abatida. Maltratado. Quase um bicho. “Coitado. Vai ver que ele não parou o ônibus porque estava com pressa de chegar e almoçar. Almoçar o macarrão da quentinha, em pé naquela imundície”. Me senti mal por reclamar. Será que ele poderia ser demitido? Vai que seu emprego já estava por um triz e essa foi a última gota… Eu seria a responsável por uma suspensão, uma bronca do chefe, ou, pior, pelo fim da fonte de renda de uma família inteira?

Mas espera aí. Eu não podia me sentir culpada. Se ele não tinha condições de trabalho, que exigisse do seu patrão. Se o barulho do motor é insuportável, se o ar não refrigera, se o trânsito é caótico, se a sua profissão é estressante, se o salário não dá pra nada, ele que exija seus direitos junto ao patrão. Não é por isso que eu não vou exigir os meus. Por pena, por compaixão, a gente acaba deixando pra lá e passa a não reclamar mais. Isto é, compactuamos com a bandalha e somos cada vez mais desrespeitados como cidadãos.

Opa, acho que toquei na palavra-chave: cidadania. Aquele motorista de ônibus, aquele homem quase bicho, certamente não conhece seus direitos. Nem imagina que tem direito a exigir seus direitos. Falta a ale a noção de cidadania. Falta educação, escola, professor, exemplo. Tudo começa e acaba na educação. Isso é básico, quase instintivo. Quando uma criança nasce, qual a primeira preocupação do pai? Prover uma boa educação para que a criança tenha um futuro garantido.

Por isso, choca tanto a foto do Sérgio Cabral rindo em Brasília no dia em que foi apresentado aos pífios resultados do Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) no estado do Rio. Em 2008, 40% entre os 30 melhores colégios do país eram fluminenses, agora são apenas 26%. O título da matéria no jornal: “Governador atribui fracasso a ‘30 anos de destruição’ da rede de ensino”. Mas será que em três, quatro anos realmente não dava para ele mudar um pouco esse resultado? Pelo menos reverter a queda? Quatro anos não é muito, mas também não é pouco. Não se pode mudar tudo, mas se pode mudar bastante.

Aliás, mesmo que não fosse sincero, o mínimo de constrangimento do governador e do prefeito em Brasília seria de bom tom, ao receber um resultado assim. Se o seu filho tira a pior nota do colégio você vai conseguir sair rindo do encontro com o diretor? O descaso histórico brasileiro pela educação só pode vir mesmo de algum grande interesse político e econômico, posto em prática pelos governantes.

(Fonte: Observatório da Imprensa, Júnia de Azevedo)

Tannhäuser (para limpar os ouvidos)

Já na introdução da sua ópera Tannhäuser, o grande compositor, maestro, teórico musical, ensaista e poeta alemão Richard Wagner (1813 — 1883) nos ensina a ser maiores que nós mesmos.

Arnold Böcklin (1827 – 1901)

 

Die Toteninsel, 1883

Die Toteninsel, 1883

Em 1998, tive a felicidade de conhecer Berlim, que é uma pedrada na cabeça, mas confesso que, entre tudo o que vi lá, nada me emocionou tanto como este quadro de Arnold Böcklin, que hoje acordou no meu quarto.

Um pouco mais de Böcklin:

 

 

 

 

 

 

Naiad

Naiad

Veja muito mais aqui.

A ponte


A vida é um rio
correndo sob a ponte.

Às vezes, sou as águas
que se misturam,
arrastando o tempo e
modificando as margens.

Às vezes, sou a ponte,
presa em seus alicerces,
vendo o dia escoar
por entre seus pilares.

Melhor é ser o rio
e deixar-se levar
pelo curso imprevisível
do destino.

Mesmo que seu leito
seja um torvo mistério.

Azevedo, Júnia; Menina sentada na varanda; Ed. B.L. Garnier; Rio de Janeiro
© Todos os direitos reservados

 

 

Publicado em: às J. f. 2008 em 1:57 pm  Deixe um comentário  
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Retirante


Hoje sou retirante do meu Nordeste

Da grande seca que foi a minha vida

Largo enfim a sina de cabra da peste

E rumo para o Sul com bilhete só de ida

Deixo para trás meus trastes,

Meus olhos baços e tristes

Não carrego mais as tralhas da desilusão

Minha bagagem hoje é só meu coração

Azevedo, Júnia; Menina sentada na varanda; Ed. B.L. Garnier; Rio de Janeiro
© Todos os direitos reservados

Publicado em: às J. f. 2008 em 1:41 pm  Comentários (1)  
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A maliciosa herança do lundu

 

Rugendas - Lundu

Rugendas - Lundu

 

Segundo Ricardo Cravo Albin, em seu O Livro de Ouro da MPB, é no século XVII que se pode começar a falar numa música popular brasileira. Até então, as expressões musicais na Colônia marcavam-se pelas danças rituais dos índios, pelos batuques de escravos (a maioria dos quais também rituais), pelas cantigas dos europeus colonizadores (originadas nos burgos medievais dos séculos XII a XVI), pelo hinário religioso católicos dos padres e pelos toques de fanfarras militares dos exércitos portugueses aqui aquartelados. Todas formas musicais bem definidas e isoladas.

 

Mas, com o surgimento das cidades, as expressões musicais começaram a se miscigenar. Escapando das igrejas, das casernas e da ordem unida, a música vai ganhando as rodas públicas e assumindo novas feições.

 

Um dos mais remotos registros do canto popular brasileiro é do poeta Gregório de Matos Guerra (1633 – 1696), o Boca do Inferno, que tinha forte ligação com a música. Veja os curiosos versos com que ele, mesmo já velhote, tentava seduzir as escravas, cantando ao som de uma viola de arame:

 

Peça amores e fineza,
Peça beijos, peça abraços;

Pois que os abraços são laços,

que prendem grandes firmezas;

Não há maiores despesas,

Que um requebro, e que um carinho;

Pois no tomar de um beijinho,

Fica a riqueza ganhada.

Se tudo o mais não vale nada,

Não peças mais, meu anjinho.

“A licensiosidade que perdurou mais tarde nos versos de nossa poesia é herança desse ‘Petrarca sertanejo’ que aperfeiçoou o lundu, tão em voga na Colônia”, esclarece Segundo Segismundo Spina, na antologia do poeta. O lundu é uma dança e canto de origem africana, que, por ser considerado indecente e lascivo, chegou a ser proibido por D. Manuel (1469 – 1521). O ponto alto da coreografia distinguia-se por uma umbigada entre o homem e a mulher. Aos poucos, porém, o lundu também foi “refinando-se” e adentrando os salões da sociedade colonial.

 

“O lundu-dança continuou a ser praticado por negros e mestiços enquanto o lundu-canção passou a interessar aos compositores de escola e músicos de teatro, onde era feito para ser dançado e cantado com letras engraçadas e maliciosas. Já em fins do século XIX, esse aspecto foi intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa, que, acompanhando-se ao violão, depois de determinada hora improvisava com facilidade lundus especiais ouvidos só por homens.”1 Veja:

 

O diabo desta chave

Que sempre me anda torta

Por mais jeitos que lhe dê

Nunca posso abrir a porta

 

Tome lá esta chave,

Endireite, sinhá…

Você é quem sabe

O jeito que lhe dá…

Seguido de outro lundu,

 

Eu possuo uma bengala

Da maior estimação,

É feita da melhor cana

E tem o melhor castão.

 

A minha bela caseira

Toda inteira se arrepia

Quando três vezes por dia

Não dou bengaladas nela.

 

E concluía: Lhe fincando a bengalada!

 

No século XX, com o aparecimento de outros gêneros afro-brasileiros mais expressivos, o lundu saiu de moda. No entanto, sua vertente lasciva e maliciosa foi incorporada definitivamente na nossa cultura popular musical. Uma modalidade do lundu, a dança de roda, ainda é praticada na Ilha de Marajó. No You Tube há vários vídeos com a dança, mas a maioria de qualidade muito ruim. No entanto, como curiosidade, vale a espiada. A coreografia é realmente quente.

 

 

 

1Albin, Ricardo Cravo – O livro de Ouro da MPB – Ediouro, pág. 28.

“Quem não vive o espírito do seu tempo, do seu tempo vive apenas as mazelas.”

Voltaire

Publicado em: às J. f. 2008 em 1:29 pm  Deixe um comentário  
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Ítaca – Constantino Kavafis

Se partires um dia rumo à Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem lestrigões, nem ciclopes, 
nem o colérico Posidon te intimidem! 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes 
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais com que prazer, com que alegria 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir. 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos 
E perfumes sensuais de toda espécie 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrinas 
Para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. 
E, agora, sabes o que significam Ítacas. 
 
Constantino Kabvafis (1863-1933), O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz 
Publicado em: às J. f. 2008 em 1:13 pm  Deixe um comentário  
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Manhã de Carnaval – Bonfá

 

Em 1956, é montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. Além de ser a primeira vez que um negro pisava o palco do Teatro Municipal, a peça levou a uma sucessão de acontecimentos que mudaram a história da música brasileira. Entre eles, o início da parceria entre Tom Jobim e Vinicius, pois foi buscando um compositor para musicar sua obra que o poeta foi apresentado ao jovem maestro.

 

Em 1958, o texto de Vinicius virou filme, numa produção franco-ítalo-brasileira, com o nome Orfeu do Carnaval. O produtor da película, Sacha Gordine, exigiu que a partitura original da peça incluísse canções inéditas. Foi aí que Luiz Bonfá e Antônio Maria compuseram o sensacional samba Manhã de Carnaval.

 

Dizem que Manhã de Carnaval chegou a ser recusada inicialmente, obrigando Bonfá a criar uma nova versão. Mas o compositor insistiu e conseguiu mantê-la na trilha. Alguns meses depois, Manhã de Carnaval já era a segunda música mais gravada no mundo.

 

Manhã de Carnaval se tornou um dos temas brasileiros preferidos na área do jazz, com dezenas de versões gravadas por grandes músicos do gênero. A canção ajudou a estabelecer o movimento da Bossa Nova no final da década de 50. Existem também outras versões da música com letra adaptada para o inglês, mas a versão mais popular, até mesmo no exterior, ainda é a de nome e letra em português.

 

Aqui, Manhã de Carnaval numa das versões que mais gosto, na voz de Nara Leão. E, por sinal, foi junto com o seu pai, o arquiteto Carlos Leão, que Vinicius começou a escrever a peça.

 

 

 

Atenção jornais: não compro carro, não alugo apartamento, não procuro cartomante

 

Não quero trocar de carro, não quero comprar ou alugar casa, não estou procurando emprego nem busco serviços de escort boys ou aconselhamento espiritual. Mesmo assim, todo dia, como assinante de jornal, recebo o caderno de classificados, uma maçaroca de papel que vai imediatamente para o lixo ser reciclada (aliás, reciclar pressupõe que antes houve algum uso para o material, o que, no caso, não acontece, a não ser quando o porteiro pega o jornal para as necessidades do cachorro, mas aí é outra história).

 

Ao abrir o jornal pela manhã, minha primeira providência é retirar as páginas de classificados e separá-las na lixeira. Confesso que há até um prazer nisso, especialmente nos finais de semana, quando o volume do que tenho que ler se reduz significativamente, o que é um alívio.

 

Hoje, questiona-se se o jornal impresso irá sobreviver à era da internet. Há quem diga até que ele já morreu e que o fechamento de um grande número de diários é só uma questão de tempo. Não sei. O fato é que a indústria de comunicação precisa mesmo se repensar. E o envio dos classificados é mais uma de suas grandes questões, especialmente por ser uma de suas fontes de financiamento.

 

Já estava na hora de criarem uma forma de reduzir essa massa de papel chamada classificados – para muitos, inútil – enviada diariamente para as bancas e os assinantes. Imagine quantas toneladas diárias de lixo todo esse papel representa! Penso que, como eu, muitos assinantes, se pudessem, escolheriam não receber esse caderno, especialmente sabendo que estariam fazendo um bem pelo planeta. E, quando quisessem, bastava ligar e acionar a entrega. Nas bancas, o comprador poderia escolher o jornal com ou sem os classificados.

 

Aliás, as campanhas voltadas para a preservação de meio ambiente feitas hoje pelos jornais chegam às raias do ridículo. Em nome do meio ambiente, recentemente o Globo enviou até bichinhos de pelúcia e livros sobre temas ambientais – provavelmente escritos por estagiários de jornalismo com base em pesquisa na internet (sou coleguinha de profissão e sei como isso funciona).

 

Não era hora de trocar esse discurso barato por sistemas de bancos de dados mais inteligentes que permitissem a redução do volume de papel? Aliás, penso que o primeiro jornal que fizer isso vai ganhar muito, primeiro em simpatia e logo depois em assinantes.

 

Isso me lembra até um episódio que assisti recentemente no incrível mundo frívolo do GNT, canal da Net. Num desses Fashion Week da vida, vi a repórter toda deslumbrada falando que o cenário do desfile era feito de madeira ecologicamente sustentável, como se isso fosse a salvação do planeta. Mas, cá entre nós, tem coisa mais perversa para o meio ambiente que a cultura do descarte promovida pela indústria de moda? Aliás, é bem provável que num futuro próximo as modelos caiam do salto por conta da patrulha ambiental que deve se acirrar em todo o planeta, assim como aconteceu com os fumantes.

 

A verdade é que entre o discurso ambientalista e a prática há um longo, um longuíssimo caminho. E o mundo não parece realmente preparado para uma mudança efetiva nos seus hábitos de consumo. De qualquer forma, tomara que as previsões mais alarmistas estejam erradas. Mas fica o meu recado para os jornais.

 

Texto publicado, em 8/7/2008, no Observatório da Imprensa, com o título Classificados ambientalmente desclassificados”.

 

 

Sobre o fim dos jornais: leia aqui outro artigo do Observatório da Imprensa.

 

 

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