Arnold Böcklin (1827 – 1901)

 

Die Toteninsel, 1883

Die Toteninsel, 1883

Em 1998, tive a felicidade de conhecer Berlim, que é uma pedrada na cabeça, mas confesso que, entre tudo o que vi lá, nada me emocionou tanto como este quadro de Arnold Böcklin, que hoje acordou no meu quarto.

Um pouco mais de Böcklin:

 

 

 

 

 

 

Naiad

Naiad

Veja muito mais aqui.

A ponte


A vida é um rio
correndo sob a ponte.

Às vezes, sou as águas
que se misturam,
arrastando o tempo e
modificando as margens.

Às vezes, sou a ponte,
presa em seus alicerces,
vendo o dia escoar
por entre seus pilares.

Melhor é ser o rio
e deixar-se levar
pelo curso imprevisível
do destino.

Mesmo que seu leito
seja um torvo mistério.

Azevedo, Júnia; Menina sentada na varanda; Ed. B.L. Garnier; Rio de Janeiro
© Todos os direitos reservados

 

 

Publicado em: on J. f. 2008 at 1:57 pm Deixe um comentário
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Retirante


Hoje sou retirante do meu Nordeste

Da grande seca que foi a minha vida

Largo enfim a sina de cabra da peste

E rumo para o Sul com bilhete só de ida

Deixo para trás meus trastes,

Meus olhos baços e tristes

Não carrego mais as tralhas da desilusão

Minha bagagem hoje é só meu coração

Azevedo, Júnia; Menina sentada na varanda; Ed. B.L. Garnier; Rio de Janeiro
© Todos os direitos reservados

Publicado em: on at 1:41 pm Comentários (1)
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A maliciosa herança do lundu

 

Rugendas - Lundu

Rugendas - Lundu

 

Segundo Ricardo Cravo Albin, em seu O Livro de Ouro da MPB, é no século XVII que se pode começar a falar numa música popular brasileira. Até então, as expressões musicais na Colônia marcavam-se pelas danças rituais dos índios, pelos batuques de escravos (a maioria dos quais também rituais), pelas cantigas dos europeus colonizadores (originadas nos burgos medievais dos séculos XII a XVI), pelo hinário religioso católicos dos padres e pelos toques de fanfarras militares dos exércitos portugueses aqui aquartelados. Todas formas musicais bem definidas e isoladas.

 

Mas, com o surgimento das cidades, as expressões musicais começaram a se miscigenar. Escapando das igrejas, das casernas e da ordem unida, a música vai ganhando as rodas públicas e assumindo novas feições.

 

Um dos mais remotos registros do canto popular brasileiro é do poeta Gregório de Matos Guerra (1633 – 1696), o Boca do Inferno, que tinha forte ligação com a música. Veja os curiosos versos com que ele, mesmo já velhote, tentava seduzir as escravas, cantando ao som de uma viola de arame:

 

Peça amores e fineza,
Peça beijos, peça abraços;

Pois que os abraços são laços,

que prendem grandes firmezas;

Não há maiores despesas,

Que um requebro, e que um carinho;

Pois no tomar de um beijinho,

Fica a riqueza ganhada.

Se tudo o mais não vale nada,

Não peças mais, meu anjinho.

“A licensiosidade que perdurou mais tarde nos versos de nossa poesia é herança desse ‘Petrarca sertanejo’ que aperfeiçoou o lundu, tão em voga na Colônia”, esclarece Segundo Segismundo Spina, na antologia do poeta. O lundu é uma dança e canto de origem africana, que, por ser considerado indecente e lascivo, chegou a ser proibido por D. Manuel (1469 – 1521). O ponto alto da coreografia distinguia-se por uma umbigada entre o homem e a mulher. Aos poucos, porém, o lundu também foi “refinando-se” e adentrando os salões da sociedade colonial.

 

“O lundu-dança continuou a ser praticado por negros e mestiços enquanto o lundu-canção passou a interessar aos compositores de escola e músicos de teatro, onde era feito para ser dançado e cantado com letras engraçadas e maliciosas. Já em fins do século XIX, esse aspecto foi intensamente explorado por Laurindo Rabelo, o poeta Lagartixa, que, acompanhando-se ao violão, depois de determinada hora improvisava com facilidade lundus especiais ouvidos só por homens.”1 Veja:

 

O diabo desta chave

Que sempre me anda torta

Por mais jeitos que lhe dê

Nunca posso abrir a porta

 

Tome lá esta chave,

Endireite, sinhá…

Você é quem sabe

O jeito que lhe dá…

Seguido de outro lundu,

 

Eu possuo uma bengala

Da maior estimação,

É feita da melhor cana

E tem o melhor castão.

 

A minha bela caseira

Toda inteira se arrepia

Quando três vezes por dia

Não dou bengaladas nela.

 

E concluía: Lhe fincando a bengalada!

 

No século XX, com o aparecimento de outros gêneros afro-brasileiros mais expressivos, o lundu saiu de moda. No entanto, sua vertente lasciva e maliciosa foi incorporada definitivamente na nossa cultura popular musical. Uma modalidade do lundu, a dança de roda, ainda é praticada na Ilha de Marajó. No You Tube há vários vídeos com a dança, mas a maioria de qualidade muito ruim. No entanto, como curiosidade, vale a espiada. A coreografia é realmente quente.

 

 

 

1Albin, Ricardo Cravo – O livro de Ouro da MPB – Ediouro, pág. 28.

“Quem não vive o espírito do seu tempo, do seu tempo vive apenas as mazelas.”

Voltaire

Publicado em: on J. f. 2008 at 1:29 pm Deixe um comentário
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Ítaca – Constantino Kavafis

Se partires um dia rumo à Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem lestrigões, nem ciclopes, 
nem o colérico Posidon te intimidem! 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes 
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais com que prazer, com que alegria 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir. 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos 
E perfumes sensuais de toda espécie 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrinas 
Para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. 
E, agora, sabes o que significam Ítacas. 
 
Constantino Kabvafis (1863-1933), O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz 

Manhã de Carnaval – Bonfá

 

Em 1956, é montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. Além de ser a primeira vez que um negro pisava o palco do Teatro Municipal, a peça levou a uma sucessão de acontecimentos que mudaram a história da música brasileira. Entre eles, o início da parceria entre Tom Jobim e Vinicius, pois foi buscando um compositor para musicar sua obra que o poeta foi apresentado ao jovem maestro.

 

Em 1958, o texto de Vinicius virou filme, numa produção franco-ítalo-brasileira, com o nome Orfeu do Carnaval. O produtor da película, Sacha Gordine, exigiu que a partitura original da peça incluísse canções inéditas. Foi aí que Luiz Bonfá e Antônio Maria compuseram o sensacional samba Manhã de Carnaval.

 

Dizem que Manhã de Carnaval chegou a ser recusada inicialmente, obrigando Bonfá a criar uma nova versão. Mas o compositor insistiu e conseguiu mantê-la na trilha. Alguns meses depois, Manhã de Carnaval já era a segunda música mais gravada no mundo.

 

Manhã de Carnaval se tornou um dos temas brasileiros preferidos na área do jazz, com dezenas de versões gravadas por grandes músicos do gênero. A canção ajudou a estabelecer o movimento da Bossa Nova no final da década de 50. Existem também outras versões da música com letra adaptada para o inglês, mas a versão mais popular, até mesmo no exterior, ainda é a de nome e letra em português.

 

Aqui, Manhã de Carnaval numa das versões que mais gosto, na voz de Nara Leão. E, por sinal, foi junto com o seu pai, o arquiteto Carlos Leão, que Vinicius começou a escrever a peça.

 

 

 

Atenção jornais: não compro carro, não alugo apartamento, não procuro cartomante

 

Não quero trocar de carro, não quero comprar ou alugar casa, não estou procurando emprego nem busco serviços de escort boys ou aconselhamento espiritual. Mesmo assim, todo dia, como assinante de jornal, recebo o caderno de classificados, uma maçaroca de papel que vai imediatamente para o lixo ser reciclada (aliás, reciclar pressupõe que antes houve algum uso para o material, o que, no caso, não acontece, a não ser quando o porteiro pega o jornal para as necessidades do cachorro, mas aí é outra história).

 

Ao abrir o jornal pela manhã, minha primeira providência é retirar as páginas de classificados e separá-las na lixeira. Confesso que há até um prazer nisso, especialmente nos finais de semana, quando o volume do que tenho que ler se reduz significativamente, o que é um alívio.

 

Hoje, questiona-se se o jornal impresso irá sobreviver à era da internet. Há quem diga até que ele já morreu e que o fechamento de um grande número de diários é só uma questão de tempo. Não sei. O fato é que a indústria de comunicação precisa mesmo se repensar. E o envio dos classificados é mais uma de suas grandes questões, especialmente por ser uma de suas fontes de financiamento.

 

Já estava na hora de criarem uma forma de reduzir essa massa de papel chamada classificados – para muitos, inútil – enviada diariamente para as bancas e os assinantes. Imagine quantas toneladas diárias de lixo todo esse papel representa! Penso que, como eu, muitos assinantes, se pudessem, escolheriam não receber esse caderno, especialmente sabendo que estariam fazendo um bem pelo planeta. E, quando quisessem, bastava ligar e acionar a entrega. Nas bancas, o comprador poderia escolher o jornal com ou sem os classificados.

 

Aliás, as campanhas voltadas para a preservação de meio ambiente feitas hoje pelos jornais chegam às raias do ridículo. Em nome do meio ambiente, recentemente o Globo enviou até bichinhos de pelúcia e livros sobre temas ambientais – provavelmente escritos por estagiários de jornalismo com base em pesquisa na internet (sou coleguinha de profissão e sei como isso funciona).

 

Não era hora de trocar esse discurso barato por sistemas de bancos de dados mais inteligentes que permitissem a redução do volume de papel? Aliás, penso que o primeiro jornal que fizer isso vai ganhar muito, primeiro em simpatia e logo depois em assinantes.

 

Isso me lembra até um episódio que assisti recentemente no incrível mundo frívolo do GNT, canal da Net. Num desses Fashion Week da vida, vi a repórter toda deslumbrada falando que o cenário do desfile era feito de madeira ecologicamente sustentável, como se isso fosse a salvação do planeta. Mas, cá entre nós, tem coisa mais perversa para o meio ambiente que a cultura do descarte promovida pela indústria de moda? Aliás, é bem provável que num futuro próximo as modelos caiam do salto por conta da patrulha ambiental que deve se acirrar em todo o planeta, assim como aconteceu com os fumantes.

 

A verdade é que entre o discurso ambientalista e a prática há um longo, um longuíssimo caminho. E o mundo não parece realmente preparado para uma mudança efetiva nos seus hábitos de consumo. De qualquer forma, tomara que as previsões mais alarmistas estejam erradas. Mas fica o meu recado para os jornais.

 

Texto publicado, em 8/7/2008, no Observatório da Imprensa, com o título Classificados ambientalmente desclassificados”.

 

 

Sobre o fim dos jornais: leia aqui outro artigo do Observatório da Imprensa.

 

 

Soneto de fidelidade – Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento. 

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento. 

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama 

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

 

 

Conheça o site do poeta.

Publicado em: on J. f. 2008 at 1:38 pm Deixe um comentário
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Napoleão Bonaparte trouxe a aposentadoria para o Brasil

A celebração dos 200 anos da chegada da família real portuguesa traz à tona uma série de fatos curiosos, como o que deu origem à palavra “aposentadoria”. Com uma etimologia carregada de tanta repugnância, não é de se estranhar que a aposentadoria oficial brasileira seja essa lástima que é hoje.

 

Fugindo das tropas de Napoleão, que estavam a apenas dois dias de Lisboa, a família real partiu, numa atabalhoada fuga, rumo à sua maior colônia d’além mar, o Brasil. Assim, em março de 1808, junto com Sua Majestade, mais de dez mil pessoas aportaram de repente no Rio de Janeiro.

 

Mas, onde instalar todos aqueles nobres e protegidos que, às pressas, deixaram seus solares, quintas e herdades muitas vezes sem tempo nem de preparar direito a bagagem? Simples: escolhiam-se as melhores habitações da cidade e as famílias eram obrigadas a desocupar seus aposentos – incluindo aí suas cousas, como móveis, pratarias, roupas de cama, criados e o que mais o hóspede escolhesse. Taí a origem da palavra aposentadoria.

 

Quem tinha uma habitação regular, de uma hora para outra, podia deparar à porta com as iniciais P. R., que significavam Príncipe Real, ou, em bom português, “Ponha-se na Rua”. Existia tanto a aposentadoria passiva como a ativa. A passiva permitia que o proprietário, embora recebendo o hóspede, permanecesse na casa (quanta gentileza!).

 

“Foi um deus-nos-acuda…”1 O ato despertou a ira da população. O trauma foi tanto que os mais endinheirados, com medo de terem seus imóveis invadidos, passaram a construir casas pequenas, influenciando na arquitetura da cidade. Mas também havia os que se achavam mui dignos de terem suas habitações escolhidas (vai entender…).

 

A verdade é que o ato de despojar a pessoa de sua casa era um costume antigo da nobreza portuguesa. Desde a dinastia de Borgonha, os reis usavam e abusavam desse preceito. A partir de 1590, virou imposição legal. Assim, os deslocamentos dos reis de Portugal pelo país eram precedidos por um personagem da casa real, o aposentador-mor, que ia à frente escolhendo os aposentos que lhes serviriam de pouso. Nada mais natural, portanto, que invocar o direito à aposentadoria para instalar toda aquela gente que chegava no Rio de Janeiro.

 

Vale notar que “o nobre ou protegido que se aboletava na casa alheia devia obrigatoriamente pagar um aluguel. Mas a verdade é que isso nem sempre foi feito. Pouco a pouco, principalmente com o falecimento das importantes personagens que para cá vieram, os proprietários começaram a reaver as suas casas. O regime das aposentadorias foi extinto no reino de Portugal a partir de 25 maio de 1821. No Brasil isso ocorreu dois anos depois: a 20 de outubro; o que constituía uma conseqüência da volta de muita gente para Portugal, acompanhando o rei d. João.”1

 

 

1O Rio de Janeiro Imperial, Adolfo Morales de los Rios Filho, 2ª edição, Topbooks, Universidade da Cidade Editora, págs. 60 e 61.

 
 
Outras fontes de pesquisa:

Wilcken, Patrick; Império à deriva: A corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821; Rio de Janeiro; Objetiva; 2005.
Lustosa, Isabel; D. Pedro I: um herói sem nenhum caráter; São Paulo, Companhia das Letras; 2006;